Missões nas Escrituras
O caráter e a natureza de Deus são a base do estudo do ministério intelectual. Só chegaremos a compreender a finalidade do reino de Deus e os propósitos divinos mediante uma compreensão completa do seu controle soberano do universo da história.
O amor de Deus é o princípio fundamental da história da redenção
A característica da natureza de Deus, da qual o gênero humano depende totalmente, é o amor. Para Deus, toda a sua criação é importante, mas ele escolheu o homem, de modo especial, para receber o seu favor imerecido, a sua graça. Mas desde o principio Deus teve de encarar um dilema no que diz respeito ao homem.
Em toda a criação, Deus delega autoridade. Isso é verdade quanto ao Reino de Deus, tanto nos céus como na terra. Deus organizou os anjos em hierarquias, concedendo-lhes graus distintos de responsabilidades e autoridade. Deus deu a um querubim formosura esplendida, grande sabedoria e poder (Ez 28.12-17). Deu-lhe um trono e conferiu-lhe autoridade para governar como primeiro-ministro de Deus. Lúcifer tinha grande poder, formosura perfeita e esplendor, tudo isso concedido por Deus. Mas também tinha o livre-arbítrio. Em determinado instante da história, este anjo ficou tão deslumbrado com sua própria formosura e grandeza que, ultrapassando sua posição, desejou “ser semelhante ao Altíssimo” (Is 14.14). Encabeçou uma rebelião com o fim de estabelecer um reino, da qual participou ao seu lado um terço dos anjos (Ap 12.4, 7-9).
Por causa desta rebelião, Lúcifer, agora chamado Satanás (adversário), recebeu o juízo de Deus e foi expulso do céu. Embora se encontre sob a condenação da derrota final, Satanás ainda atua em franca rebeldia contra Deus e seus propósitos.
Havendo sido criado um anjo de luz, agora governa um reino de trevas. Seu reino está em rebelião contínua contra Deus.
Algum tempo depois de Satanás haver sido expulso do céu, Deus fez outra criação, à qual também concedeu livre-arbítrio: o homem. Esta liberdade de escolha reflete a imagem de Deus. Outorga ao homem o poder de agrade a Deus e principalmente de corresponder ao seu amor. A fim de ter comunhão com Deus e amá-lo, foi preciso que o homem contasse com a liberdade moral de escolher.
O vínculo do amor é muito mais poderoso que a força do poder. Deus estabeleceu seu relacionamento de companheirismo e comunhão com Adão e Eva mediante o amor, e não por intermédio da força. Fê-los também participantes do seu senhorio sobre a terra. A fim de continuarem esse relacionamento com Deus, teriam apenas de passar na prova de obediência total à vontade divina. Mas falharam. Esse desastre identificou a humanidade com Lúcifer, que também falhara.
A decadência do homem
A falha do homem ocasionou dois problemas para Deus. Ao criar seres morais, Deus arriscou-se a perder a obediência deles. Primeiramente, Lúcifer desertou-se, seduzindo a lealdade de enorme número de anjos e iniciando um reino contrário a Deus. Em segundo lugar, o homem também se afastou e caiu num estado de pecado e de contínua decadência moral.
Nesse momento da história, a pergunta crucial era: o que faria Deus a esse respeito? Destruiria a Satanás, seus seguidores, o homem, a terra, tudo com um golpe de sua justiça? Mas as causas das ações de Deus arraigam-se na natureza do seu caráter.
Foi o amor de Deus que escreveu a história da redenção. Seria justificável que Deus destruísse a todos os rebeldes ou parte deles. Mas ele havia previsto a possibilidade do pecado e idealizado um meio para resgatar o homem. Esse plano cumpriria dois propósitos: reivindicaria a porção usurpada do reino de Deus e redimiria o gênero humano do poder e da pena do pecado. Mas em sua condição decaída e pecaminosa, o homem estava impossibilitado de receber o poder reparador de Deus. A solução soberana para este problema foi a encarnação de Cristo como homem. No seu amor pelo homem, Deus já havia determinado realizar o sacrifício supremo para salvá-lo. Ele pagaria pessoalmente a pena do pecado humano, por meio do seu filho Jesus Cristo (Ef 1.4; 1Pe 1.20).
Esse ato da graça de Deus, único na história, exemplifica a profundeza do poder vencedor do amor divino (Rm 8.37). Embora Deus tenha reservado para si o direito soberano de um Juízo Final, optou por ainda não exercer esse direito a fim de que a humanidade crente seja redimida. Nunca na história da humanidade se viu uma revelação maior do caráter amoroso de Deus do que quando ele enviou a Jesus para redimir os homens.
Anunciando Deus sua sentença sobre Satanás, pela parte deste na queda do homem, ele disse: “porei inimizade entre ti e mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Amiúde faz-se referência a esta passagem como proto-evangelho. Esta é a primeira referência a Cristo na Bíblia e é importante por ela relaciona Cristo com a derrota de Satanás. É esta a essência do Evangelho – as boas-novas de vitória sobre o fracasso.
Mas o homem não receberia uma libertação instantânea da culpa. Ele fracassou por meio da desobediência, mas Deus propôs cimentar o fundamento da redenção ensinando ao homem a importância da obediência à sua vontade. A história do trato de Deus com o povo de Israel para obediência à Lei está repleta de fracassos por parte do povo. A desobediência contínua de Israel faz fracassar a missão que Deus lhe havia confiado, vindo o juízo divino sobre esta nação.
O sentido mais direto em que esta passagem de Gênesis se cumpriu foi na crucificação de Jesus Cristo. Satanás foi a força impulsionadora do sofrimento de Cristo antes da sua morte. Mas o ferimento no calcanhar, produzido por Satanás, quando comparado com a ferida na cabeça, causada por Cristo, foi menor e temporário. A morte e ressurreição de Cristo selaram a condenação final de Satanás e do seu reino.
Não foi somente Jesus Cristo quem desempenhou um papel na derrota de Satanás. Deus busca sempre levantar, redimir e habilitar o homem para que vença o reino de Satanás. Ele deseja que o adversário seja derrotado diariamente, assim como será no Juízo Final.
Esse Deus amoroso intervém constantemente nos assuntos humanos para levantar o homem acima da sua natureza decaída e capacitá-lo a contra-atacar a ação de Satanás. Deus nunca ficou impassível no que se refere ao homem. Nunca se mostrou desejoso em deixar que o homem siga o seu próprio caminho. Permanece sempre com o olhar vigilante, pronto para buscar e salvar a toda ovelha perdida, corrigir e animar a todos os que seguem.
Deus tem uma missão. Com a sua missão ativa, Ele deseja que os homens se arrependam mediante a obra realizada por Cristo (Lc 19.10; 2Pe 3.9). Através de toda a história, Deus tem contado com a participação dos seus servos. Noé construiu a arca, que foi um instrumento da salvação de Deus no dilúvio. Israel deveria ser a testemunha de Deus perante as nações. Hoje é a igreja de Jesus Cristo que é o instrumento que Deus chamou para participar de sua missão.
O amor de Deus não se restringe a uma raça, nação ou grupo cultural. Ele ama a todos os povos. Ama tanto os pigmeus da África quando os homens de negócio da Ásia. Deseja redimir os refugiados cambojanos tanto quanto os soldados argentinos. O amor de Deus ultrapassa as fronteiras culturais, raciais e lingüísticas. Ele deseja que todos tenham a oportunidade adequada de seguir a Cristo.
Pr. Edimar Ribeiro é Diretor do SETAD